Luis Fernando Marin da Fonte é biólogo e tem 31 anos de idade. Trabalha com anfíbios desde 2003 e é membro do Grupo de Especialistas de Anfíbios (IUCN SSC Amphibian Specialist Group, ASG) da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) desde Julho de 2014.

Por que você se interessa por anfíbios?

Eu sempre fui fascinado pelo diferente, pelo exótico, por tudo que foge do senso comum. Desde o início, o que chamou a minha atenção nos anfíbios foi exatamente essa singularidade, essa excentricidade: quão bonitas podem ser essas pequenas criaturas, que normalmente se escondem ao longo do dia, para subitamente aparecer durante a noite, mostrando seus lindos cantos? Quão diversos podem ser esses animais tão únicos, cheios de cores e formas? Por que eles, que são tão inofensivos, são tão repudiados e temidos? Quão ameaçados eles estão e o que eu posso fazer para ajudar a protegê-los?

Quais são suas mais antigas memórias de interação com anfíbios? Você tem histórias engraçadas para contar?

Quando eu era pequeno, eu passava bastante tempo com a minha família na casa dos meus avós em Vale Vêneto, um pequeno povoado no interior do Rio Grande do Sul. Entre vacas, galinhas, porcos, cachorros e gatos, eu e meus primos interagíamos bastante com outros animais, como cobras e anfíbios. As serpentes normalmente eram temidas, mas os encontros com os sapos-cururu eram sempre cheios de alegria. A gente costumava chamar eles de “Chico”, independente se era sempre o mesmo ou diversos indivíduos, e eles eram tratados como membros da família. Era super comum ouvir alguém perguntando: “Alguém viu o Chico hoje?” ou “Vocês viram que ontem de noite o Chico estava dentro da cozinha?”. Eu adorava ver eles comendo besouros embaixo das lâmpadas e ficava impressionado com a quantidade que eles conseguiam comer em uma única noite.

Mais tarde, quando já estava na Universidade, participei de uma disciplina de Ecologia onde deveríamos desenvolver um estudo em campo. Todo mundo se adiantou para pegar os assuntos mais populares: mamíferos, aves, aranhas e plantas. Para minha sorte, ninguém escolheu os anfíbios, de modo que não foi difícil convencer meus amigos a trabalhar com eles. Durante o trabalho de campo, no dia 3 de Janeiro de 2003, foi a primeira vez que eu tive a oportunidade de realmente ver esses animais impressionantes, de molhar meus pés no banhado e de me fascinar com os hábitos, os nomes científicos, a música e o encanto deles. Daquela noite em diante, eu sabia que os anfíbios fariam parte da minha vida.

Naquela época, no entanto, eu fazia um estágio remunerado (e meu trabalho de conclusão de curso) em um laboratório de genética de Drosophila, então eu não podia simplesmente abandonar tudo. Comecei então a fazer trabalho de campo com anfíbios nos finais-de-semana, enquanto continuava trabalhando com as moscas e comparecendo às aulas de Biologia durante a semana. Por um ano e meio, eu e três grandes amigas trabalhamos dois finais-de-semana por mês, algumas vezes dormindo três horas por noite, pegando chuva e frio no inverno e sofrendo com os mosquitos no verão. Esta foi uma época muito importante para mim, onde aprendi a trabalhar em equipe e nunca desistir, apesar de todas as dificuldades que enfrentamos ao trabalhar com anfíbios no campo. Foi nessa época que se consolidaram as bases da minha paixão por esses animais.

Quando vocês descobriu que os anfíbios estão em apuros e como isso fez você se sentir?

A primeira vez que eu ouvi falar sobre isso foi na época da faculdade. Um amigo me mostrou um xerox de uma reportagem falando sobre declínios em populações de anfíbios causados por destruição do habitat, mudanças climáticas e proliferação de doenças. Foi também a primeira vez que ouvi falar sobre quitridiomicose. Depois disso, ao longo dos meus estudos e trabalho, comecei a ver os anfíbios não como tópicos de pesquisa ou entidades abstratas (como espécies, comunidades ou populações), mas sim como indivíduos. E, ao vê-los como indivíduos, comecei a sentir que nenhum deles deveria ser prejudicado e que cada pequena vida salva deveria ser comemorada como uma grande vitória.

Qual sua opinião sobre as perspectivas futuras para a conservação de anfíbios e a prevenção de futuras extinções? Você acha que os anfíbios têm pela frente um futuro favorável ou sombrio?

Eu acho que o futuro dos anfíbios depende de nós, humanos, da forma como vemos e interagimos com o meio-ambiente e do modo em que usamos os recursos naturais. Como eu sempre prefiro focar no presente, não vejo um futuro favorável, mas tampouco sombrio: eu simplesmente não consigo (ou prefiro não) pensar em tempos distantes.

Sobre a nossa forma de agir, acho que devemos seguir aquela velha idéia de pensar globalmente, agir localmente. Da mesma forma, devemos manter um olho no futuro, mas os pés no presente. Neste momento, temos que trabalhar bastante para identificar as principais ameaças à vida selvagem e agir pontualmente para detê-las. Ao mesmo tempo, devemos investir em políticas de longo prazo (a níveis regional, nacional e global), como proteção do habitat e, especialmente, educação. As pessoas apenas irão respeitar (e em consequência proteger) aquilo que elas conhecem e com que se identificam. Nós temos que ensinar crianças e adultos sobre a importância de proteger o meio-ambiente e, no nosso caso, os anfíbios. Temos que colocar um fim à crença de que eles são nojentos, perigosos e associados à bruxaria e ao obscurantismo. Temos que mostrar que eles são bonitos e essenciais para o equilíbrio ecológico e, para aqueles que necessitam de um propósito antropocêntrico para os animais, devemos mostrar que também são importantes para os seres humanos.

Eu acho que a principal idéia guiando nosso trabalho com anfíbios deveria ser que conservação não é sobre as pessoas (e seus nomes, seus egos e suas pequenas rixas), mas sobre os animais. Assim, deveríamos sempre trabalhar em equipe, sempre somando, ao invés de dividindo e excluindo. Se estamos realmente preocupados com os anfíbios, devemos focar neles, não em nós. Temos que abandonar nossas vaidades: espécies, tópicos de pesquisa e de conservação não devem ter donos; qualquer um interessado em trabalhar e colaborar deve ter a possibilidade de fazer isso.

Acredito que o ponto chave aqui é investir em colaborações multidisciplinares e multi-institucionais, integrando pesquisadores, instituições governamentais, não-governamentais e, claro, a sociedade. Temos que usar o conhecimento de pesquisadores e conservacionistas experientes, mas também abrir espaço para novas pessoas, jovens e motivadas. Temos que ouvir e trabalhar junto com moradores de comunidades locais; algumas vezes eles podem saber muito mais do que nós.

Também temos que usar a criatividade para encontrar novas formas de fazer pesquisa, aprendendo com nossos erros, desenvolvendo novas abordagens e, assim, abandonando algumas práticas antigas e que já não se enquadram em nosso contexto atual, como técnicas de marcação e recaptura invasivas e coleta indiscriminada de indivíduos. Temos que ser mais cuidadosos, desinfetando nossas botas e material de campo, para evitar disseminar doenças. Temos que aumentar o uso de recursos tecnológicos não invasivos em nossos estudos de taxonomia, biologia e ecologia. Temos que investir em pesquisas efetivas e com foco, evitando desperdiçar fundos, tempo e recursos em estudos sem sentido.

Temos que ser criativos e encontrar novas formas de financiar ações de conservação, investindo em ferramentas de financiamento coletivo (crowdfunding) e em parcerias com órgãos públicos e empresas.

Temos que trabalhar junto com organizações de fiscalização e cumprimento das leis, fornecendo informações para combater o tráfico, a coleta e o comércio ilegal de animais. Temos que ajudar a fiscalizar aqueles que possuem licença para coletar, criar e vender animais. Temos que educar as pessoas e conscientizá-las, mostrando que manter animais selvagens como pet é crueldade e vaidade. O tráfico de animais só existe porque existem pessoas que os compram. Temos que mostrar para essas pessoas as histórias de sofrimento e dor escondidas por trás desse comércio.

Resumindo, acho que devemos atuar: (i) identificando o problema; (ii) discutindo-o em equipes multidisciplinares; (iii) agindo com foco e localmente, objetivando efetividade; (iv) compartilhando experiências de sucesso; (v) aplicando em diferentes locais e contextos os conhecimentos adquiridos a partir dessas trocas, usando a criatividade para, se necessário, adaptá-las regionalmente.

Temos que conectar as pessoas. Temos que usar a internet para compartilhar novas idéias e ações de conservação de sucesso. Temos que trabalhar juntos!

Você pode nos contar um pouco mais sobre seu atual trabalho e foco?

Atualmente estou fazendo Doutorado na Universität Trier, na Alemanha, sobre a influência de ilhas de vegetação como promotoras de dispersão de longa distância em anfíbios da Amazônia. Um dos focos desta pesquisa é mostrar a importância dos rios para o movimento de indivíduos na bacia amazônica, e talvez indicar os possíveis impactos de barramentos de usinas hidrelétricas na conexão e no fluxo genético entre populações. Também continuo bastante envolvido com um projeto que está em andamento desde 2010, sobre a conservação do sapinho-admirável-de-barriga-vermelha (Melanophryniscus admirabilis). Trata-se de uma espécie Criticamente em Perigo de extinção, que ocorre apenas ao longo de 700 metros de um rio na Mata Atlântica do Rio Grande do Sul e que, até recentemente, encontrava-se ameaçada pela possível instalação de uma pequena central hidrelétrica. Graças ao nosso trabalho, feito de forma multidisciplinar e multi-intstitucional, conseguimos impedir a construção do empreendimento. Para saber mais sobre esse assunto, você pode ler a reportagem que escrevemos para a FrogLog, acessar o site que criamos sobre a espécie e seguir nossa página nas mídias sociais. Também estou ajudando a desenvolver um site sobre educação ambiental (sobre anfíbios e répteis) para crianças, professores e outros interessados. Aqui na Alemanha, estou ajudando em um projeto envolvendo a salamandra-de-fogo e o fungo quitrídeo altamente mortal Batrachochytrium salamandrivorans. Além disso, sou co-editor das notícias de conservação da revista Herpetologia Brasileira e membro do Grupo de Especialistas de Anfíbios (IUCN SSC Amphibian Specialist Group, ASG) da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Nosso foco atual é desenvolver o grupo no Brasil, identificando e conectando as pessoas que trabalham com conservação de anfíbios no País, compartilhando iniciativas bem-sucedidas, discutindo os desafios e, acima de tudo, trabalhando juntos para tornar o time mais forte e nosso trabalho efetivo.

Quais são algumas das coisas que nossos leitores podem fazer para ajudar a proteger os anfíbios?

Antes de tentar mudar o mundo, acho que devemos tentar mudar nós mesmos. E só conseguimos fazer isso aprendendo. O único problema da educação é que conhecimento traz junto consigo responsabilidade. E isso é verdade também para as pessoas trabalhando com conservação. Você se importa de discutir proteção de anfíbios enquanto come um belo churrasco? Eu sim. Mesmo aqueles que preferem sapos ao invés de vacas, porcos e galinhas deveriam ter em mente que duas das principais causas de desmatamento são a pecuária e as monoculturas vegetais cultivadas para alimentar esses animais. Além de causar destruição, perda e fragmentação do habitat, a criação de animais (intensiva e extensiva) colabora para o aquecimento global e poluição do solo e dos corpos d’água. Monoculturas vegetais, além de impactarem diretamente a biodiversidade, utilizam agrotóxicos e pesticidas que contaminam o solo e a água. Assim, se estamos preocupados com o futuro dos anfíbios e de outros animais selvagens, devemos não apenas culpar “eles” (grandes corporações, políticos, capitalistas, etc), mas também refletir sobre a nossa contribuição para esse sistema e, dessa forma, reduzir o nosso consumismo.

Se você ama anfíbios e quer ajudar a protegê-los, então aprenda, aprenda, aprenda! E depois conte para as outras pessoas o que você aprendeu, mostrando a elas o quão bonitos e importantes esses animais são. Ajude a educar e a conscientizar o mundo.

O que mantém você motivado e dedicado a salvar os anfíbios?

Desde que comecei a trabalhar com anfíbios, doze anos atrás, eu fui pago para fazer pesquisa e atividades de conservação apenas durante três anos (quando tive uma bolsa de Mestrado e, agora, no meu primeiro ano de Doutorado). Ao longo dos outros nove anos, eu sempre trabalhei de forma voluntária e, por isso, sempre precisei ter outro emprego para me manter (por sorte, sempre como biólogo). Muitas vezes, não vou mentir, quando algumas coisas não iam bem, eu me senti idiota por estar fazendo isso sem receber “nada” em troca. Mas quando fazemos o gostamos e acreditamos, logo esquecemos dos problemas e continuamos fazendo isso, sempre e sempre. O que me mantém motivado, por mais egoísta que possa soar, é a satisfação pessoal que sinto em cada vez que estou em campo com meus amigos, quando vejo uma nova espécie pela primeira vez, quando estou sozinho de noite em algum banhado ou riacho, no meio do mato ou no Pampa, e vejo a lua e as estrelas enquanto escuto o canto de um sapo. Ou quando percebo cada pequena vitória na nossa luta diária pela conservação dos anfíbios. Nesses momentos, eu me dou conta de que nossa trabalho realmente vale muito a pena.

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